Quero uma doula

Relatos de parto

Relato de Parto - Mãe Alessandra Bernardes - doulada por Lena Rubia Borgo Bezerra

Dia 13 de julho de 2013, 7:49 da manhã, na Maternidade Santa Fé em Belo Horizonte, nasceu o Caio. Um bebezinho lindo, cabeludo, pesando 3.100kg e medindo 49,5 cm. Assim terminou a história de uma gestação mais que especial e começa uma outra que não se encerrará tão brevemente quanto as 39 semanas e 4 dias até o parto! Ainda que já passados mais de quatro meses de muitas delícias, aprendizagens, inseguranças, choros e risadas (nossas e dele) e, não é possível esquecer, horas e mais horas sem dormir, antes e depois desse evento, relato nosso parto, algo que queria fazer já há muito tempo! Bem no início da gestação, que teoricamente completaria 40 semanas no dia 17 de julho, sonhei que o Caio nasceria no dia 23 do mesmo mês. Mais para o final, já com aquele barrigão, sem posição para dormir e sem muita disposição para fazer qualquer coisa, mas ainda assim bem serena com o tempo, fiquei pensando nessa data... será que esse 23 não é 13?!

Na sexta-feira, dia em que minha bolsa rompeu, acordei, fui caminhando ao yoga, voltei... tudo normal. Mas queria ficar mais quieta naquele dia e justifiquei minha ausência em duas reuniões marcadas para a tarde. Fiquei em casa e baixou o santo de deixar o quartinho Caio arrumado. Passei um dia tranquilo de descanso, alimentação leve e preguicinha em frente à TV. ?Amanhã é dia Mundial do Rock, vão passar uns documentários legais no Canal Brasil. Sabadão... vou assistir!? Esperando o jornal acabar para tomar banho, sinto um ?ploc? dentro da barriga... sabia que não era o Caio se mexendo, nem fome, nem gases! Não dei muita atenção; continuei deitada, tranquila... Assim que me levantei e dei alguns passos, senti a aguaceira descendo pernas abaixo! Ui! Estourou a bolsa! Voltei para sala e liguei para o meu companheiro, o Favela: ?Môr, acho que a bolsa estourou. Vem pra cá!? Veio ele correndo de Ouro Preto! Nessa hora ainda não tinha certeza de que a bolsa tinha se rompido, mas quando me levantei novamente para ligar para o nosso obstetra, o Dr. Marco Aurélio, uma piscina se formou sob meus pés. Não tinha mais dúvidas! Liga para mãe, para doula, para as irmãs, para as amigas!

Todo mundo mobilizado e eu tranquila... Estava muito bem informada sobre o parto, coisa que estudei demais ao longo da gestação, e isso me deu muita segurança para ficar bem! De toda forma, hoje revendo as fotos dessa noite, fico pensando que não tinha ideia das fortes emoções e sensações que estavam por vir... o que certamente também me ajudou a ficar tranquila! Queria muito o parto natural e, quando a bolsa rompeu, sabia que a coisa podia não sair como desejado já que o tempo é mais limitado. Quando Marco Aurélio disse que talvez tivéssemos que induzir, fiquei um pouco triste e queria fazer o possível para evitar, embora a indução pudesse ser feita com acupuntura, como ele sugeriu. Ainda sozinha, arrumei as coisas, sentei na bola e fiquei perambulando pela casa... ?Descansa?, clamavam as vozes da sabedoria da minha mãe e da nossa doula, a Lena. Mas eu, cabeça dura, só queria saber das contrações e não parava quieta! Penso que essa é uma das únicas coisas que mudaria no trabalho de parto! Ficaria quieta quando ainda podia! Fiz meus exercícios de respiração, minhas orações... O povo foi chegando (alguns mais desesperados que outros) e decidi, antes tarde do que nunca, dar uma descansada. Começaram as contrações! Eba!!! Cada uma que chegava, comemorávamos eu e o papai! Depois de alguns marca e desmarca, nos encontramos com o Marco Aurélio às 3:00 horas da manhã na maternidade. Como queria! Sem trânsito! Entre as muitas conversas que tivemos com o Caio durante a gestação, algumas tiveram essa pauta: ?Nós providenciamos a estrutura e você escolhe o dia e a hora para nascer; mas não se esqueça de que moramos em BH!? As contrações aumentavam em número e intensidade e o ritmo entre elas diminuía. Ainda conseguia conversar e controlar a dor durante as contrações. Examinada às 3:30, estava só com 2 cm! Ai Jesus! O Favela foi arrumar a papelada e eu, comendo bolachinhas salpet, fui colocar aquela camisola lindíssima da maternidade! O quarto que queríamos, única suíte PPP, estava livre! Opa! Mais um desejo realizado! Tudo indo bem.

A partir daqui, não me lembro de muitos detalhes... só sei que passado algum tempo o bicho estava pegando completamente!!! Me lembro que o Marco Aurélio apareceu no quarto em algum momento, possivelmente com as agulhas para a acupuntura, e deve ter pensado: ?Pelo jeito, parece que não vai precisar de nenhuma agulha por aqui...!? Junto com a ajuda da minha mãe, a Lena chegou e deu aquela força! Transformou nosso quarto e deu muitas e importantes orientações que ajudaram demais! Durante o trabalho de parto quase não fiquei parada! Bola, barra, anda para cá, anda pra lá, chuveiro, sofá... Ai, fiquei cansada! Queria comer, mas não dava; queria dormir, mas não dava... uma contração atrás da outra! Eita dor! Tamanha intensidade não fazia parte dos planos! O Favela vinha me abraçar e quase o mordia! Virei bicho, uma fera mesmo! Estava completamente centrada em mim, no meu corpo e nas contrações. As vocalizações do começo agora viraram super gritos! A meia luz, sonzinho rolando, cheirinho de essência de gerânio... vixe, não via nada! Com os olhos entreabertos, tomando uns goles de suco de maracujá (se fosse hoje, levaria de uva), perambulava para lá e para cá! Era contração de tudo quanto é jeito... segundos de descanso no sofá e na bola amparada pelo Favela. Quanto amor! Exausta e muita dor, já depois de fazer milhões e xixis, cocos, chorar e até vomitar, pensei em entregar os pontos! ?Anestesia, pelo amor de Deus!? Pedi o toque para saber como as coisas estavam caminhando... mais ou menos 6 da manhã, 6 cm! Chorei novamente! ?Não vou dar conta!? Novamente as vozes maravilhosas das minhas lindas, mamãe e Lena: ?Não toma anestesia não! Você vai conseguir! Está indo muito bem!? Revigorei! Deixa esse trem para lá! Vâmo que vâmo!

Aquelas palavras, mãos, carinhos... e apertões no quadril! Nossa, que alívio! Não sei como aconteceu, mas eis que, de repente, estou eu lá na maca, em posição de quatro apoios, fazendo força! ?Sai menino!? Toda força, toda força... Marco Aurélio de volta (ou nem saiu, sei lá!)... ?Tô vendo a cabecinha dele!? O Favela: ?Eu também!? E eu pensando: ?Tô sentido! Socorro! Vem Caio!? Ia e voltava, ia e voltava... Toda a força, toda a força... Não sai! Rezo para todos os santos e anjos (e tenho uma resposta sutil que me fortalece)! Esgotada, choro denovo! ?Não vou conseguir... não é possível!? Eis que alguém sugere: ?Muda de posição!? Vamos lá... cócoras! Sabia que essa posição, que me ajudou tanto com as dores da gestação, ia me ajudar no parto! Dito e feito! Mais alguns empurrões com respiradas fazendo tshiii, tshiii, tshiii e nasceu o Caio! Que emoção! Eu, que tinha desejado e fantasiado tantas coisas para dizer quando o visse pela primeira vez, em êxtase total, só conseguia olhar para ele, sorrir-chorar e dizer: ?Meu filho! Nasceu! Meu filho nasceu! Nasceu!!!? Melhor coisa do mundo! Abraçar e beijar o Caio, ainda todo amanteigado!

Ai, que delícia! No meu colinho, com o cordão umbilical ainda nos conectando, trocando olhares e sentindo seu corpinho juntinho com o meu, agora de fora da barriga... sentindo também os xixis que ele fazia um atrás do outro! Amamentar!!! Foi bom demais! Foi lindo! Foi inesquecível! Em seguida fui examinada e tudo em ordem! A placenta saiu inteira, não tive laceração e o útero já estava quase todo no lugar! Fui tomar banho sossegada. No restante do sábado descansei, comi e cuidei do Caio o dia todo pela primeira de muitas vezes. Obviamente não assisti ao especial do dia Mundial do Rock. Aquele dia me reservava coisas extraordinariamente melhores! Como disse o Dr. Marco Aurélio olhando em sua agenda depois de me examinar logo que chegamos à maternidade, ?dia 13 de julho, dia Mundial do Rock. Um bom dia para nascer, não é!?? Certamente!

Foi um excelente dia para nascer! Boa escolha filho!

Alessandra Bernardes - doulada por Lena Rubia Borgo Bezerra