Quero uma doula

Relatos de parto

Parto domiciliar planejado em apenas duas semanas

passei a gravidez toda falando que iria ter a Teresa no carro do bombeiro. e eu não estava brincando muito não. achava melhor estar numa emergência dentro do carro vermelho, do que no hospital. ao menos, não iam fazer nada. eu ia fazer meu parto. e o bombeiro Juvenal iria amparar o bebê no banco de trás.

com 34 semanas de gravidez, tive muitas contrações (um excesso, mesmo) e tive que ir ao hospital pra checar. foi tão ruim lá, que avisei o marido: eu não venho aqui ter a bebê. eu vou ficar em casa e vai nascer onde for, mas aqui não.

com 37 semanas cheguei um dia na obstetra, mais uma consulta meio inútil....pesar...ouvir coração de bebê....medir pressão e... tchau. falei:

- doutora, eu estou tão bem?por que tenho que ir pro hospital? eu não vou.
- ué, você é uma gestante sem risco algum.
- então tudo bem se eu te dizer que vou pra casa ter lá minha filha?
- quem é tua equipe?

expliquei que conhecia algumas enfermeiras obstetrizes que poderiam ir.

- ah, eu acho que você vai ficar bem. não acho loucura não.

e então eu não voltei mais.

tenho que agradecer muito ao acaso (que me promoveu no trabalho na maior correria, no susto, no oitavo mês de gravidez, e nos deixou pagar pelo parto domiciliar com mais tranquilidade).

tenho que agradecer muito às amigas do MAHPS e do ISHTAR-Sorocaba, que já faz uns anos que abrem meus olhos pra situação de violência obstétrica brasileira (e na minha cidade, também).

ao diretor da maternidade gente fina, que me disse que preferia mil vezes ter um filho em casa.

à doula à distância, porque grávida de mesma idade gestacional, e amiga, Gisele, que me ajudou a gravidez toda e ainda me indicou as profissionais que me deram segurança pra montar, em 2 semanas, um parto domiciliar às pressas pra Teresa.

à minha mãe, que me ouviu ter esta ideia assim, no finalzinho da gravidez, e em vez de surtar contra, me apoiou. ela sofreu violência obstétrica muitíssimo parecida com a minha. somos histórias bem repetidas, e ela queria me ver poder fazer diferente agora.

ao marido, que ao me ouvir comentar assim, como quem não quer nada, com 37 semanas de gestação:

- ei, se eu te dissesse que quero ter a bebê aqui, em casa, com você e duas parteiras?você toparia?
- ué, é o que você deseja?
- acho que sim.
- carol, vamos. eu te ajudo. vamos ficar em casa.
- mas você acha que eu banco isso? que eu consigo?
- eu acho que se você não consegue isso, ninguém mais conseguiria. vamos?!

no dia seguinte ele estava contando aos clientes que iria ter um filho em casa dali uns dias, me mandando vídeos de parto domiciliar, todo orgulhoso. senti firmeza.

organizei as coisas, conversei com as profissionais, achei que fosse ficar muito nervosa, mas não. compramos os materiais uns três dias antes.

só quem está no limite psicológico e físico do nono mês de gravidez sabe do que estou falando: você promete todo santo dia que aquela é tua última vez. que chega! você está cansada, pesada (não importa quanto engordou?engordei somente 4kg e fiquei super cansada também), ansiosa e louca pra que acabe.

eu olhei o calendário da lua, a parteira veio me ver em casa... e chegamos a uma data provável: eu sentenciei:

- nasce depois da virada da lua, com 39 semanas. eu sei. estou exausta e ela quer sair.
naquele fim de semana, viajamos, saímos, comemos, fui fazer caminhadas, fui a festas. não sentei. na noite de domingo, a lua virou e a neném pirou. não dormi nem uma hora a partir da meia-noite. ela se mexia tanto, e eu tremia inteira de cansaço. deitada na cama, vi o travesseiro molhado de suor, neste baita frio.

marido trabalhando no computador na sala, eu saio do quarto e aviso: vai dormir, porque sua filha vai nascer pela manhã ou a tarde e você vai estar cansado. estou estranha pra caramba, ela está maluca, e eu não aguento mais.

conversei com minha doula à distância até meia-noite, falando como estava destruída e louca pra que a bebê saísse daqui.

entrei no chuveiro era 2h da manhã, cansada, exausta, sem perceber que já estava com dor.

sentei no banquinho que estava lá e chorei feito doida. não faço ideia por quê. cansaço, ansiedade, alguma dor. saí do banho e marido me olhando: calma, mãe, logo vai acabar.

tentei dormir, não adiantou nada. as contrações começaram. de 10 em 10 minutos. voltei pra sala e avisei. ele foi dormir.

cinco da manhã, ainda sem dormir, já com dor mais forte, mandei mensagem pra minha parteira: se prepara, que acho que é hoje. contrações de 6 em 6 minutos. eu tendo certeza que era pra noite...já que a outra filha demorou bastante pra engrenar. as duas parteiras, Priscila e Giovana, estavam em outras cidades. uma em São Paulo, uma em Itapetininga. ambas a uma hora de distância de nós.

dali a pouco, 7 horas da manhã, me liga Priscila, rumando de SP pra cá.

- ué, muito cedo, não se preocupe, não vai precisar tão já! é pra mais tarde, acredito.
- carol, pela sua voz, eu sei que está perto. estou indo pra aí.

liguei pra minha mãe, pedindo pra vir buscar a mais nova. acordei o marido. era hoje.

quando era 8h da manhã, eu já não conseguia conversar durante as contrações. 5 em 5 minutos, pessoal chegando. eu achando SUPER cedo.

8h30 eu comecei a receber massagens nas costas, pois a dor estava ficando forte. a cada contração, uma agachada no chão e massagem.

9h30 a dor ainda estava suportável, mas bastante incômoda. fui pro chuveiro. fiquei meia hora sozinha, mas a dor apertou. saí pra ser examinada pela primeira vez. 10h da manhã: 8 cm de dilatação e bebê baixando.

- como assim? - falei.
- é pra já. tá vindo.
- não é possível. tá doendo mas tô conversando aqui, rindo. eu no facebook no celular.

a dor apertou e voltei pro chuveiro. marido entrou junto. e aí não teve volta. sentada, de pé, agachada, de qualquer forma a dor era muito forte. chorei, gritei, pedi pra sair... pedi pra parar o parto. as meninas me disseram que não tinha volta. a pior parte era agora. tinha que se entregar e aceitar a dor, porque ela me traria a bebê. não aceitei. não queria aquela dor. parecia que ela jamais iria sair dali um dia.

saí do chuveiro, mais um exame: dilatação total, pode fazer força. eu deitei e fui descansar. não queria fazer força não. fico preguiçosa no final. cansada, sem dormir. queria mais aquilo não. queria dormir.

chorei, retruquei, e fui. falei com Teresa, bem baixinho:
- vamos lá então, vou te ajudar a sair, você me ajuda? Teresa, você vai sair agora! eu vou te ajudar!

a gente fica meio drogada no final do parto. a natureza é sábia. e eu repetia pra parteira:

- não está doendo mais, por quê?
- porque ela está saindo.
- natureza, como você é boa! queima, mas não dói. a natureza é linda?
(a louca falando com a natureza bem no meio do parto, totalmente passada e bêbada)
fiz duas forças, de cócoras, no chão. sentada num banco de parto, com marido me segurando pelas costas igual seu avô fez com sua avó durante os 13 partos dela. forças surreais. parteiras de joelhos no chão. se não saísse naquela, capaz de cair de costas, de tanta força que fez. mas não. ela voou pra baixo numa força só. cabeça, corpo, saiu tudo de uma vez. e me deram ela.
- ela tem cabeloooooooooooooo?. acabouuuuuuuuu?.ela saiuuuuuuuuuuuuu?acabouuuuuuuuuuuuu?.
todo mundo dando risada no quarto. eita que clima bom. deitei na cama com ela, ela mamou, esperamos o cordão parar de pulsar e a parteira cortou, não fiz questão. ela era bonita de doer e imensa. tomei 5 pontos no total, em pequenas lacerações naturais (nada se comparado à imensa episiotomia desnecessária que tive na outra gestação, quando tomei 10 pontos internos e 10 externos).
acabou. eu olhava pro marido e ele ria. sem roupa verde. sem episio. sem posições ginecológicas. sem máscara, sem vacinas imediatas, sem banho no bebê. ela toda suja e com o melhor cheiro do universo. sem colírio. sem sumir com ela. sem horário de visita. sem anestesia. sem sala de recuperação. sem aspiração. sem soro. sem ocitocina. sem Kresteller. sem colegas de quarto chorando de dor. sem nada.
duas horas depois, estávamos eu e ele comendo na cama, com Teresa enrolada num pano, dormindo.
- doeu, ein?
- nossa. doeu.
- e foi ótimo, não?!
- LINDO!
(sou o sossego em forma de neném)
3 horas de trabalho de parto, 2 forças, 3 enfermeiras obstetrizes e uma doula a distância. nós e um bebê de 3,870Kg nascida em casa, de parto natural. assim nasceu nossa Teresa.

imensos agradecimentos à equipe toda: Giovana Fragoso (enf. obstetriz e responsável pelo parto, me acompanhou desde o começo da gravidez)
Priscila Maria Collacioppo (enf. obstetriz, que me aceitou como paciente faltando duas semanas pro nascimento)
Bárbara Claudino (enf. obstetriz - seu primeiro parto domiciliar!)
Gisele Leal (doula - à distância, no nono mês de gravidez!!!)
e à minha família:
ao meu companheiro, Ricardo. haja força. você foi espetacular.
minha mãe, que mesmo com medo das novidades que invento, me apoia em todas elas.
as meninas Helena e Malu, minha filha e enteada, que me inspiram a continuar pondo crianças no mundo.